16 de junho de 1926. 16 de junho de 2026. Nesta terça-feira (16), faz 100 anos do nascimento do pianista e professor de música Gerardo Parente.
Gerardo Parente era cearense de Fortaleza. Veio para João Pessoa em 1957 e, aqui, se dedicou ao piano e ao ensino. Aqui, morreu em 2003, aos 77 anos.
A homossexualidade de Gerardo Parente. Se, para alguns, esse tema pode ser incômodo, para mim, é tão natural quanto necessário. É parte do processo civilizatório.
Gerardo Parente parecia sofrer num tempo em que as pessoas não podiam dizer livremente que eram gays. Seu companheiro, ele apresentava como primo.
Sempre lembro com tristeza dele e do seu "primo" João quando vejo que, hoje, porque avançamos, os rapazes apresentam naturalmente seus namorados ou maridos.
Gerardo Parente era um músico admirável. Duplamente admirável. Como pianista e como professor de música. Havia talento e muito amor no que fazia.
Gerardo Parente estudou e tocava os clássicos do mundo. Mas Gerardo Parente tinha um interesse especial pelo piano brasileiro, fosse Nazareth ou Villa-Lobos.
Lembro com saudade da noite do lançamento, no velho auditório da Reitoria, na Lagoa, do disco com o duo de piano de Gerardo Parente com José Alberto Kaplan.
O disco foi lançado pelo selo Marcus Pereira, Gerardo e Kaplan se apresentaram, e o crítico José Ramos Tinhorão dividiu com o público suas polêmicas opiniões.
Gerardo Parente estava sempre disponível. Vamos gravar a quarta Bachiana de Villa-Lobos para um programa da TV Cabo Branco? - lá estava ele.
Vamos tocar Nazareth para os alunos de jornalismo na UFPB? - lá estava ele, conversando por horas com os estudantes e enfrentando um velho piano desafinado.
Eruditos e populares. Gerardo Parente era, a rigor, um músico de sólida formação erudita, mas permanetemente atento aos sinais dos que faziam música popular.
Suas histórias eram ótimas. Contava, por exemplo, que, no Sul dos Estados Unidos, entrou várias vezes numa fila para ver e rever uma pianista preta tocando jazz.
A pianista tocava blues e jazz e, ao mesmo tempo, dava uma lambidas numa imensa taça de sorvete. "Nunca mais meu piano foi o mesmo", me disse com lágrimas nos olhos.
Gerardo Parente chegava lá em casa de surpresa, às vezes, na hora do almoço. Adorava minha mãe e minha avó Stella, e era adorado por elas.
Minha mãe estava com esporão. Quando vimos, Gerardo tirou os sapatos e as meias e, deitado no chão da sala, ensinou exercícios contra as dores. Ele era assim.
Gerardo Parente foi uma das criaturas mais sensíveis e humanas que eu conheci. Em Gerardo, o homem, o pianista, o professor, a emoção estava sempre à flor da pele.
As dores das pessoas, o sofrimento coletivo, a desigualdade, as guerras do mundo, o "in gold we trust" no lugar do "in god we trust" - tudo fazia Gerardo chorar.
Os olhos cheios de lágrimas. Ou as lágrimas descendo sobre seu rosto. Eram expressões de uma sensibilidade que me fazia admirá-lo mais e mais.
100 anos do nascimento de Gerardo Parente. Lembro dele com saudade das nossas conversas e da sua música. E com a alegria de quem pôde tê-lo por perto.
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