Em 21 de junho de 1970, aquele domingo em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo no México, tornando-se tricampeão, eu estava a cinco dias de fazer 11 anos.
Trocava a infância pela adolescência e já tinha idade suficiente para ver e guardar na memória os jogos do primeiro mundial que os brasileiros viram ao vivo na televisão.
Não acompanho o futebol, não torço por nenhum time, mas era impossível ignorar a seleção que foi ao México e saiu de lá com a conquista definitiva da taça Jules Rimet.
Pelé, Carlos Alberto, Jairzinho, Rivelino, Tostão. O que aqueles caras fizeram em campo nos seis jogos da Copa do Mundo de 1970 não era futebol. Era arte.
Quem disse foi o comunista João Saldanha, que preparou o grupo e acabou sendo defenestrado do comando da seleção por seu enfrentamento à ditadura.
Pelé, em particular, deu status de arte a um esporte popular, como disse Gilberto Gil. E fazia da bola poesia quando nela punha os pés, palavras de Pier Paolo Pasolini.
Neste junho de 2026, 56 anos nos separam da Copa do Mundo do tri. O Brasil foi tetra em 1994, penta em 2002, e, agora, busca de novo a conquista do hexa.
Misturando realidade com ficção, a série Brasil 70: A Saga do Tri conta a história da Seleção Brasileira que foi à Copa do México e de lá voltou tricampeã.
É uma série em cinco episódios produzida numa parceria da Netflix com a 02 Filmes. A seis mãos, foi dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles.
A Saga do Tri tem muito mais virtudes do que defeitos. Tem tantas virtudes que nem vou mencionar aqui os defeitos que estão sendo apontados pelos críticos da produção.
Os gols do Brasil no México estão disponíveis no mundo digital e já foram vistos e revistos à exaustão por milhões de pessoas. Os gols e os melhores lances.
Reproduzi-los na ficção de modo fiel à realidade foi um dos grandes desafios da equipe que realizou a série. O resultado é a primeira grande qualidade de A Saga do Tri.
O passe de Tostão para Jairzinho fazer o gol contra a Inglaterra. A bomba de Rivelino no jogo contra o Uruguai. O passe de Pelé para Carlos Alberto fazer o gol da vitória contra a Itália. O gol que Pelé não fez, mas, mesmo assim, entrou para a história do futebol.
Em lances como esses, grandes momentos da história do futebol foram testemunhados ao vivo por quem viu a Copa do Mundo de 70. A Saga do Tri reconstitui cada um deles e tantos outros com absoluta precisão e com uma impressionante riqueza de detalhes.
Militante comunista, jornalista, técnico de futebol, grande brasileiro, João Saldanha, com o inseperável cigarro, é reencarnado em primorosa atuação por Rodrigo Santoro.
Saldanha peitou o presidente Médici, foi demitido da seleção, e Roberto Marinho o mandou cobrir o mundial. Era o Dr. Roberto cuidando dos seus comunistas.
Zagallo, o lobo Zagallo, outro imenso brasileiro, entrou no lugar de Saldanha e comeu o pão que o diabo amassou. Bruno Mazzeo dá vida a ele em A Saga do Tri.
Fazer Pelé foi tarefa entregue a Lucas Agrícola, ator estreante no audiovisual. Ficou tão parecido que derruba os argumentos de quem acha sua atuação caricata.
Na ficção, há atores que fazem tão bem o papel de uma pessoa pública e famosa que não é exigida a semelhança fisionômica. Thimotée Chalamet fazendo Bob Dylan.
E há os que impressionam mais porque ficam quase iguais a figuras da vida real. É esse o caso de Lucas Agrícola, que nos dá a impressão de que estamos vendo Pelé.
Por trás de tudo, há o Brasil da ditadura. O regime militar em seu momento mais duro, misturando o futebol com suas campanhas de desmedido ufanismo.
Brasil 70: A Saga do Tri é tudo isso. A genialidade de Pelé, a militância de Saldanha, as crenças de Zagallo, a ditadura militar e uma seleção que ainda não foi superada.
Tem defeitos, claro. Mas é muito bonito de se ver. O futebol arte do Brasil em seu ápice, gestado por criaturas de carne e osso cheias de medos e incertezas.
O ateu Saldanha e o crente Pelé. Os dois ajoelhados numa igreja. E a frase de Saldanha: "Eu vou morrer, Edson vai morrer, mas, se você ganhar a copa, Pelé será eterno".
A Copa do Mundo de 70 está dentro de nós. O Brasil segue com seus impasses no futebol e na vida real. A Saga do Tri emociona. Faz até a gente chorar um pouquinho.
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