O Dia do Coco de Roda, da Mazurca e da Ciranda é comemorado neste domingo (26). Na Paraíba, o ritmo de raízes africanas ganhou também influências indígenas e se tornou tradição em periferias, territórios indígenas e comunidades tradicionais.
Uma das teorias mais conhecidas aponta que o coco surgiu no Quilombo dos Palmares, a partir do som que os africanos e negros escravizados faziam ao bater a fruta no chão. O pesquisador e brincante Zé Silva discorda dessa versão. Para Silva, a palavra "coco", assim como "samba", funciona como um guarda-chuva para diversas manifestações culturais que surgiram ao mesmo tempo em várias localidades.
"Uma tradição pode coexistir. Aqui nas Américas, na África, na Ásia, na Europa. Como é, por exemplo, a questão dos tambores", afirmou o pesquisador.
Para Clara Potiguara, esta mistura de influências africanas e indígenas do coco de roda fazem do ritmo um espaço de acolhimento e pertencimento.
"Para mim, o coco é um coração de mãe, sempre cabe mais um para entrar na roda, cheio de camadas históricas, um canto que vem do peito, cheio de representatividade", disse Cara.
Sobre a data que celebra o coco de roda, o pesquisador explica que a escolha está diretamente ligada ao dia de Nossa Senhora Santana. O pesquisador José Silva explica que, tradicionalmente, muitos grupos só brincavam o coco nessa ocasião.
“O dia 26 de julho era o dia de Nossa Senhora Santana, e muitos grupos só brincavam nessa data. Em alguns lugares ainda resiste a brincadeira de Nossa Senhora Santana, como, por exemplo, em Baía da Traição, na Aldeia Laranjeiras, onde Nossa Senhora Santana é a padroeira, e também no assentamento Dona Antônia, no Conde”, explicou Zé Silva.
Quilombos e aldeias
No litoral da Paraíba, o coco se desenvolveu em comunidades tradicionais, como os quilombos, onde a influência africana é marcante. Segundo Zé Silva, uma das principais características dessa herança é a umbigada, elemento de origem banto presente na dança.
“O coco na Paraíba se desenvolve no litoral, por exemplo, nos quilombos, onde você tem influência mais africana, obviamente. E aí você tem como característica principal a umbigada, que é de origem africana, banto”, informou o pesquisador.
Já nas manifestações associadas à tradição indígena, o destaque recai na força das pisadas e no ritmo marcado pelos pés. Essa característica também é apontada como um traço da mazuca, manifestação cultural frequentemente identificada pelos praticantes como de origem indígena.
“Eu percebo, então assim, se for dizer qual é a característica mais forte do coco indígena, eu digo que é os pés. É a força com que eles rebatem os pés”, afirmou Zé Silva.
A cantora Clara Potiguara, vencedora do prêmio Shell pela trilha sonora do espetáculo ‘'Tybyra - Uma Tragédia Indígena Brasileira’, lembra que o coco faz parte de sua vida desde a infância na aldeia São Francisco.
“Reverencio minhas memórias iniciais com o coco de roda/coco de toré com o meu Mestre Seu Tonhô, quando ainda vizinhos na aldeia São Francisco. Eu fiz algumas visitas em sua casa, conversamos e cantamos, sem espaço para tempo ruim, com muita troca e respeito pela liderança”, afirmou a cantora.
Além dos quilombos, aldeias e periferias, o coco de roda também tem relação com os terreiros de religiões afro-brasileiras, especialmente a Jurema Sagrada. Essa vertente se baseia na estrutura de pergunta e resposta, inspirada nos pontos cantados, e é transmitida oralmente entre mestres e juremeiros. Matheus Presto, do grupo Seu Zé Quer Coco, destaca que, no chamado coco de terreiro, são utilizados instrumentos musicais presentes na Jurema, como o maracá e os ilús (tambores).
"Os instrumentos que acompanham o Coco de Terreiro não são apenas percussivos, mas pertencem também à cosmologia dos terreiros de matriz afro-indígena. O maracá, instrumento de origem indígena usado nos rituais da Jurema, o agbê e o ilú, instrumentos ligados aos toques de matriz africana, cumprem dupla função: marcam o ritmo do coco e, ao mesmo tempo, são usados nos próprios toques litúrgicos dedicados a mestres, caboclos e encantados”, comentou Matheus Presto.
source https://jornaldaparaiba.com.br/cultura/dia-do-coco-de-roda-tradicao-tem-influencias-africanas-e-indigenas-explica-pesquisador