Telescópio no Sertão da Paraíba: entenda projeto apontado pelos EUA como base militar da China


 Telescópio no Sertão da Paraíba: entenda projeto apontado pelos EUA como base militar da China
Base militar da China no Aguiar: entenda projeto de telescópio citado pelos EUA em relatório - Foto: Divulgação/Secom-PB. Divulgação/Secom-PB

Um relatório do Congresso dos Estados Unidos apontou que o Radiotelescópio BINGO, que está em fase de instalação na Serra do Urubu, na cidade de Aguiar, no Sertão da Paraíba, é uma base militar da China, que vai realizar espionagem. O coordenador do projeto, no entanto, afirma o contrário, que o empreendimento é puramente científico e tem finalidade de mapear o espaço. 

O Jornal da Paraíba separou as principais informações sobre o uso do radiotelescópio BINGO e como aconteceu as alegações dos Estados Unidos. 

O que é o radioteléscopio e como ele funciona

O radiotelescópio BINGO (sigla em inglês para Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations) terá o tamanho de um campo de futebol e vai captar ondas de rádio emitidas pelo hidrogênio neutro no espaço.

Com esses dados, os cientistas poderão estudar fenômenos ligados à expansão do universo e à chamada energia escura, que representa a maior parte da composição do universo, mas ainda é pouco compreendida.

Ao contrário dos telescópios ópticos, o BINGO detecta sinais que não são visíveis ao olho humano. Ele também poderá monitorar satélites, meteoros e outros corpos celestes menores.

O que é energia escura 

Um dos objetivos do projeto é estudar a energia escura, uma espécie de força que aumenta a taxa de velocidade na expansão do universo. De acordo com a Nasa, em determinado momento da história do universo houve um aumento nessa velocidade de crescimento, justamente impulsionada pela energia escura. 

No entanto, também de acordo com a agência espacial norte-americana, não é possível afirmar o que é essa força. O BINGO tenta obter dados sobre essa situação. Conforme a estimativa,  68,3% a 70% do universo é composto de energia escura. 

“A principal pergunta científica que nos motivou ao projeto é saber o que significa a chamada parte escura do universo. A parte que vemos corresponde a apenas 5% do universo e é muito pouco. Temos objetos 20 vezes maiores e mais intensos e que nós não compreendemos. Além disso, queremos compreender também a origem das emissões enormes de energias que, inicialmente, pensava-se ser algo terrestre ou um ruído, mas depois verificou-se que era energia vinda do espaço”, disse Élcio Abdalla quando o projeto do radiotelescópio foi lançado.

Construção do radioteléscopio em Aguiar

A construção do radiotelescópio conta com investimento direto de R$ 20 milhões do Governo da Paraíba. O cronograma inicial previa a operação para 2021, mas foi adiado. Agora, a expectativa é de conclusão em 2026. A cidade foi escolhida porque há baixa interferência visual naquela região para os equipamentos mapearem o céu. 

Na área onde será instalado o BINGO, a terraplenagem já foi finalizada. A casa de comando e a usina solar estão prontas, e a fundação de concreto que vai sustentar as torres e refletores está em construção.

No ano passado,  quinze cornetas-antenas fabricadas em São Paulo já foram entregues e a data também marcou o envio da estrutura do corpo principal da estrutura do empreendimento. Alguns objetos foram enviados à época para o Brasil e uma cerimônia oficial foi realizada na cidade de Shijiazhuang, na China, na sede do 54º Instituto de Pesquisa da CETC, com presença do secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba, Cláudio Furtado.

A estrutura saiu do Porto de Tianjin, na China, e passou no Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de transporte.

Entre as partes enviadas estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, que são componentes centrais do radiotelescópio. As estruturas viajarão em contêineres e foram testadas e certificadas antes do embarque.

Relatório do Congresso dos EUA

O relatório, intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit” (“Atraindo a América Latina para a Órbita da China”, em tradução livre), cita instalações no Brasil, Argentina, Bolívia e Chile que são vistas pelo comitê como suspeitas de terem uso duplo para a inteligência militar.

O documento foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos, presidido pelo deputado John R. Moolenaar, representante do estado de Michigan e membro do Partido Republicano.

A Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, foi apontada pelo relatório como uma base militar chinesa não-oficial para lançamentos especiais. Intitulada como 'Tucano Ground Station', a base é feita pela Ayla ao lado da empresa aeroespacial chinesa Beijing Tianlian Space Technology Co. Ltd. Seu desenvolvimento foi para analisar dados de satélites em observação da Terra para monitoramento dentro do Brasil.

Coordenador nega que há projeto militar da China

O coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, disse que o local além de não ser uma base militar também não tem ingerência dos chineses nas decisões, que quaisquer aplicações diz respeito aos brasileiros que compõem a iniciativa.

"Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar", disse Élcio.

Sobre a participação chinesa no projeto, Élcio Abdalla disse que apenas três pesquisadores de universidades do país asiático fazem parte da cúpula de comando e que o governo chinês entra apenas como apoio tecnológico e dos pesquisadores e que "se houver alguma influência, é uma influência brasileira".

“Os chineses fazem parte do projeto porque são cientistas. São três pesquisadores: um deles é um que atua em duas universidades chinesas. Há também um outro que trabalha basicamente na região ao norte de Xangai. Ele coordena dois grupos em universidades diferentes e é meu amigo pessoal e parceiro de pesquisas há muitos anos, cerca de três décadas. Há 30 anos fazemos ciência juntos e orientamos estudantes em conjunto. Os outros dois participaram como estudantes: um hoje é professor no Observatório de Xangai, ou seja, é astrônomo, e o terceiro é um físico que também foi aluno do professor”, explicou.

Outro ponto em que a China faz parte no projeto é o dos equipamentos que compõem a estrutura. Élcio Abdalla contou que o telescópio foi projetado com foco na montagem em território brasileiro. Várias peças vieram do país da Ásia.

Moradores de Aguiar apoiam projeto 

Para a TV Cabo Branco, moradores do Aguiar falaram que o empreendimento tecnológico traz "reconhecimento da cidade e do Sertão".

"Além de trazer muita oportunidade e questão de emprego, está mudando a infraestrutura da cidade, está crescendo a questão do turismo, além do reconhecimento em si, da cidade e do Sertão", disse Maisa Matias, estudante e moradora.

Uma outra moradora da região, Edilene Lira, engenheira responsável pelas obras do BINGO, nasceu na cidade de Carrapateira, que fica próximo ao município do Aguiar. Na visão dela, o empreendimento foi benéfico, porque ela conseguiu aliar a profissão e ficar mais próxima da cidade, para supervisionar as obras.

"Eu nunca imaginei que realmente a Engenharia Civil fosse me levar tão longe e também, ao mesmo tempo, ela me trazer para tão perto de casa para construir algo tão grandioso", ressaltou.

O projeto reúne instituições do Brasil e da China, como o CESTNCRI, a UFCG, a UFPB e o Governo da Paraíba.



source https://jornaldaparaiba.com.br/cotidiano/entenda-projeto-telescopio-pb-citado-pelos-eua-como-base-militar

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